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III Conferência Blockchain RTM reúne Mercado em São Paulo - 23/11/2018

III Conferência Blockchain RTM reúne Mercado em São Paulo

Pelo terceiro ano consecutivo, a RTM realizou, com o apoio da Accenture, a Conferência Blockchain, reunindo, no dia 7 de novembro, em São Paulo, mais de 120 pessoas entre gestores de TI e Telecom, autoridades e parceiros. O evento teve como palestrantes George Marcel Smetana, Especialista de Pesquisa e Inovação do Banco Bradesco; Marcelo Yared, Chefe do Departamento de Tecnologia do Banco Central; Jochen Mielke de Lima, Diretor de Sistemas da B3; Cassio Damasceno, Gerente de Negócios da CIP; e Luiz Jeronymo, Diretor de Soluções para Clientes da R3 CEV, além do Diretor de Inovação da Accenture, Guilherme Horn, que foi mediador da Conferência no debate final com interação da plateia.

O evento é uma iniciativa do programa de inovação Conecta RTM, lançado em 2016, para proporcionar um ambiente criativo para colaboração e troca de ideias através de um ecossistema cooperativo, levando informação e soluções aos clientes.

Quando blockchain faz sentido

George Marcel M. A. Smetana Especialista de Pesquisa e Inovação no Bradesco

É preciso avaliar em quais situações a adoção de blockchain faz sentido, ponderando os prós e contras do modelo antes de adotá-lo. “Não acreditamos que blockchain seja solução para todos os problemas, têm situações que não faz sentido; têm situações que blockchain é uma das soluções e situações em que ele é a melhor solução”, disse George Marcel M. A. Smetana, Especialista de Pesquisa e Inovação do Bradesco, em sua palestra. O executivo explicou como blockchain atua como um intermediário confiável (TTP, do inglês trusted third party) para transações monetárias, e reforçou que, tanto o blockchain como o distributed ledger, desintermedia TTPs centralizados por meio da criação de um TTP distribuído.

O fato de a rede tomar conhecimento de todas as moedas deixa as transações públicas e abertas, e, por isto, as companhias, principalmente os bancos, devem decidir se aceitam o risco ou não. “A rede inteira enxerga as transações, rastreia origem, destino e valor; é como se abrisse mão do sigilo bancário”, argumentou. Em outro exemplo, questionou em quais situações faria sentido para o banco enviar a base criptografa para o concorrente ou colocá-la em uma nuvem pública. “Se teu modelo de negócios permite que outras partes possam ter acesso a informações dos seus clientes, mesmo que criptografados, daí faz sentido usar blockchain público. Se o modelo permite compartilhar dados indiscriminadamente, use”, apontou.

A diferença entre um TTP centralizado e distribuído, explicou o Especialista, é que no segundo caso as transações são garantidas pelo consenso dos nós da rede e a confiança é obtida por construção como criptografia, com uma informação amarrada à outra. Todos os argumentos foram apresentados para a plateia entender os casos quando a adoção de blockchain e/ou distributed ledger fazem realmente sentido.

É preciso se perguntar, completou Smetana, se é possível resolver o problema de negócios usando APIs e certificados digitais. Outras perguntas que as companhias devem fazer é quem são os nós da rede e se faz sentido para eles participarem; quais são as vantagens de adotar blockchain, quais plataformas de blockchain se enquadram melhor e qual é o custo total de partir para blockchain.

O Bradesco está conduzindo provas de conceito. O banco também está discutindo no grupo de trabalho da Febraban o uso de blockchain para registro de imóvel dado como garantia, de modo a trabalhar com os bancos interligados neste processo.

Troca de informações simplificada

Marcelo Yared Chefe do Departamento de Tecnologia do Banco Central

Facilitar a troca de dados entre o Banco Central, a Superintendência de Seguros Privados (Susep) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Este foi o objetivo da Plataforma de Integração de Informações das Entidades Reguladoras (Pier), que é baseada em blockchain. O modelo de integração usa um barramento com mecanismo que compatibiliza e automatiza o processo de acesso às bases de dados, não sendo mais necessário replicar os dados em alguma plataforma, mas, sim, apenas manter a base de dados original atualizada.

O acesso é feito diretamente à base de um dos órgãos dentro dos critérios e das regras que cada um deles colocou. A transação sempre vai ocorrer no ledger e será um processo máquina a máquina, explicou Marcelo Yared, Chefe do Departamento de Tecnologia no Banco Central do Brasil. A plataforma escolhida foi o Quorum.

Para fazer a conexão com o ledger, o Pier usa um protocolo desenvolvido no banco e batizado de Olinda. Ele foi pensado para facilitar o acesso à base de dados, uma vez que o Banco Central tem dezenas de base de dados corporativas, usando diferentes tecnologias. “Conseguimos montar um barramento que permite acesso direto à base de dados, e nós determinamos quem pode acessar o que, dentro das regras de segurança que temos”, explicou Yared.

O Pier foi um caso de uso de blockchain realizado após a adoção da tecnologia no Sistema Alternativo de Liquidação de Transações (SALT), que criou uma maneira de fazer transferências críticas em caso de falha dos sites do Banco Central.

Como funcionam os ICOs

Jochen Mielke Diretor de Sistemas na B3

Os ICOs vêm se popularizando, mas é preciso prestar atenção antes de investir dinheiro nas empresas que usam esta oferta inicial para captar dinheiro. Jochen Mielke de Lima, Diretor de Sistemas na B3, fez uma analogia para esclarecer como funcionam os ICOs. “É a companhia aérea se financiando, vendendo milhas. Ela te dá milhas em troca das ações”, disse.

Os ICOs rodam em blockchain ethereum, com os responsáveis pelo projeto ofertando tokens antecipados para entusiastas e especuladores, em troca de criptomoedas para se financiarem. De acordo com Lima, este tipo de financiamento está crescendo e teve um boom em 2017, quando o montante captado passou de quase zero para USD 20 bilhões. “Isto chamou a atenção de fundos que viram possibilidade de fazer dinheiro.”

Mais detalhadamente, nos ICOs, o investidor compra ethereum (ETH) com dinheiro, manda ETH (criptomoeda) para o ICO, que, por meio de smart contract, armazena o dinheiro. O time de empreendedor recebe o ETH, enquanto os investidores recebem tokens. Os empreendedores trocam o ETH por dinheiro para se financiarem, e começam a desenvolver o projeto. Uma vez que o projeto estiver pronto, o investidor pode trocar os tokens para dinheiro com o público interessado, que usa os tokens para usufruir dos serviços, ou o investidor pode usar ele mesmo os tokens.

No entanto, advertiu Jochen, há muita enganação no mercado, porque para fazer ICO a empresa precisa apenas colocar um site no ar com três papers explicando o modelo de negócios, a tecnologia e como vai usar o dinheiro, além do perfil de quem estiver envolvido. “As pessoas vêm investindo sem fazer pesquisa ou due diligence”, disse, completando que, com a entrada dos fundos de investimentos, as pessoas começam a seguir os passos acreditando que, uma vez que eles investem, é porque analisaram e têm mais chances de o projeto ser sério. “ICO é forma inovadora de levantar financiamento, mas é algo fácil também. Há vários riscos e incertezas jurídicas”, apontou, lembrando que muitos dos ICOs que falham conseguem captar os valores.

É preciso abraçar o novo

Cassio Sergio Damasceno Gerente de Negócios da CIP

A Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP) está olhando para o blockchain como uma oportunidade, mas atenta ao fato de que a tecnologia pode colocar em perigo a sua própria existência. Esta foi a tônica da palestra de Cassio Sergio Damasceno, Gerente de Negócios da CIP. “Por que estamos no blockchain, se somos o que pode ser morto? A resposta é porque está no DNA da CIP desenvolver aplicações tecnológicas para a melhoria da sociedade”, disse, lembrando que a CIP nasceu como o Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB). “Somos uma base centralizada. Outro dia batemos o recorde de 5 milhões de TED em um dia.”

Para Damasceno, não se pode ter medo do que está por vir, e, por isto, deve-se trabalhar junto com as iniciativas que vêm ocorrendo, como no grupo de trabalho da Febraban. Entre as dificuldades a serem vencidas, Damasceno aponta a falta de profissionais. “Não tem programador de blockchain no mercado, se achar, dificilmente vai conhecer de smart contract”, assinalou. A CIP vem, segundo ele, formando mão de obra dentro da empresa para sanar a dificuldade em encontrar talentos.

Outro ponto levantado pelo Gerente de Negócios da CIP é com relação à governança. “Alguém tem de fazer olhar para o core e para os membros da rede; e, nisto, a CIP tem ponto importante de seguir colaborando para a sociedade como sendo um trusted third party”, afirmou.

Necessidade corporativa

Luiz Jeronymo Responsável pelas soluções com Blockchain e DLT na R3 CEV

Falando da perspectiva do lado de fornecedor de plataforma para blockchain, Luiz Jeronymo, Diretor de Soluções para Clientes na R3, explicou o nascimento da empresa de software e abordou a necessidade enfrentada pela R3 para criar uma plataforma que fosse de uso corporativo. A R3 é uma empresa de software corporativo que, junto com 200 parceiros, vem desenvolvendo uma plataforma de blockchain.

“As tecnologias existentes não atendiam ao que os bancos precisavam. Atualmente, estamos na versão três do Corda Open Source e, em julho deste ano, lançamos o Corda Enterprise, plataforma customizada para o mundo corporativo”, contou. O diferencial, segundo ele, é que o Corda prioriza a privacidade, não fazendo broadcast das transações, mas mensageria ponto a ponto.

A plataforma foi pensada mirando o mercado financeiro, mas outros segmentos já se interessaram em adotá-la, como as indústrias de seguros, de comercio internacional e o mercado de energia. Um diferencial, disse o Diretor, é que o desenvolvimento do Corda foi feito tirando proveito de tecnologia comuns, como Java e base de dados SKL, para poder contar com pessoas desenvolvendo na plataforma e facilitar a entrada de casos de uso em produção.

2019 será de profissionalização

Ao final do evento, o diretor de Inovação da Accenture, Guilherme Horn foi mediador no debate entre os palestrantes e a plateia.

Guilherme Horn, Diretor de Inovação da Accenture, liderou um debate com quatro especialistas, lembrando que, na edição de 2016, a tônica foi a necessidade, ainda existente, de consenso entre empresas que, historicamente, tiveram dificuldade em colaborar, mas que blockchain estava permitindo a aproximação e o trabalho em conjunto. Já, em 2017, a questão passou para os desafios da tecnologia em si. Para o futuro, o consenso parece apontar para a formação de mão de obra qualificada para trabalhar com blockchain. “A mensagem para 2019 vai ser a profissionalização. O pragmatismo está tomando conta, já passamos pela hype e estamos saindo do vale da desilusão”, disse Jochen Mielke de Lima, da B3. “Agora é chegada a hora de levar blockchain para a área de negócios, mas é preciso mudar o mindset”, acrescentou Marcelo Yared, do Banco Central.

Elevar o nível das discussões para que blockchain saia do reduto das áreas de inovação das empresas e entre nos negócios, ficando entre as prioridades, é um passo importante a ser dado. Mas é preciso, segundo os painelistas, ter em mente que blockchain não se aplica para todos os caos. O desafio passa a ser encontrar um caso de uso no qual a tecnologia realmente se aplique. “A tecnologia está, de certa maneira, resolvida, o problema é o mindset. Criar mindset e mão de obra necessária para isto é essencial, senão vamos ter um gargalo”, apontou Cassio Sergio Damasceno, da CIP.

A Accenture contabiliza 200 provas de conceito ligadas a blockchain, realizadas em diferentes mercados e em diferentes partes do mundo. “Não me lembro de ter acontecido com outra tecnologia de o CIO chegar e falar: ‘quero usar blockchain, me ajude’”, contou Guilherme Horn.